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O QUE APRENDEMOS COM A GREVE DOS CAMINHONEIROS?


Os brasileiros já se encontram a nove dias envolvidos direta ou indiretamente com uma paralisação iniciada pelos caminhoneiros que pararam seus caminhões e deixaram de realizar os transportes de cargas, dos mais diferentes produtos e insumos.

A primeira lição que aprendemos a duras penas é que “o transporte é a base da pirâmide” que move os processos produtivos no país.

Partidos, grupos e centrais sindicais tentaram parar o Brasil e não conseguiram fazer com que seus movimentos passassem de um aglomerado de centenas ou milhares pessoas em pontos localizados. Os caminhoneiros conseguiram realizar o que os outros tentaram. Pararam o Brasil e se mostraram como uma nova força.

O que nós percebemos é que, enquanto temos combustível, não nos damos conta da sua importância. Combustível é o que faz o carro andar. Sem combustível, de nada adianta termos um automóvel. Descobrimos que um caro modelo básico do tipo Gol 1.0 com o tanque cheio tem mais valor do que um BMW 320i com o tanque vazio.

Hoje, depois de quase dez dias de paralisação nas estradas, aos poucos, a movimentação dos responsáveis pelo transporte no país tenta retornar a normalidade, apesar da tentativa de manutenção, agora supostamente por outros envolvidos ou que se envolveram na paralisação.

No início, parecia ser um movimento apenas dos caminhoneiros, sem uma liderança clara, mas com uma pauta de reivindicações específica. Aos poucos, a população aderiu ao movimento, mas acrescentando novos itens à pauta de reivindicações, muitos reivindicando também a intervenção militar no país e a queda do governo atual, além de outros pontos um tanto românticos, se considerarmos pautas de reivindicação popular.

Até este momento, não se via a participação de representantes de classe, partidos políticos e centrais sindicais. Agora, as manifestações já possuem a inclusão de outros elementos e os representantes de classe, partidos políticos e centrais sindicais já começam a aparecer.

Mas, e se ficarmos ou se ficássemos mais uma semana, duas semanas, um mês ou mais, com a paralisação dos caminhões? O que muda nos nossos hábitos?

Bastou a paralisação ser noticiada e a população correu aos postos de combustível e aos supermercados, abastecendo mais do que normalmente faz e estocando comida. Por outro lado, postos de combustíveis aumentaram o preço, já absurdamente alto, dobrando os seus valores e alimentos triplicando de preço.

Em dois dias, a população abasteceu os seus carros com mais combustível do que seria vendido em um mês. As gôndolas dos supermercados esvaziaram. A lei da oferta e procura teve um terreno fértil para se fazer valer e em proporções gigantescas, aumentando os preços de produtos e duplicando, triplicando ou multiplicando os preços por dez.

Sem ainda entrar no mérito das razões da paralisação, se a população quisesse ser realmente solidária, não teria sido melhor acompanhar o movimento, deixando de abastecer seus carros, pelo menos não com a voracidade com que o fizeram?

E se, de fato, as manifestações continuarem, e continuar faltando combustível, resgataremos as bicicletas ou faríamos o nosso trajeto ao trabalho e às escolas a pé? Aceitaríamos, no mínimo, reduzir o número de veículos nas ruas, na medida em que um pode dar carona ao outro em um dia e vice-versa no outro?

E, se a situação piorar, ao continuar faltando combustível, com os alimentos não sendo transportados aos supermercados, compraríamos direto do produtor?

Enfim, saberíamos viver com menos? Ficaríamos mais tempo em casa? Saberíamos curtir a vida com as coisas mais simples? E quando faltar luz, água ou a internet?

Os hospitais, a polícia e os bombeiros nunca foram tão citados como ultimamente, com as notícias de que os hospitais não estão recebendo os insumos necessários para o seu funcionamento.

Sejamos sinceros! No dia a dia normal, os hospitais recebem ou tem os insumos? A paralisação é, de fato, a razão para o não recebimento destes insumos? E a polícia, com seus espaços de trabalho sucateados, faltando equipamentos e viaturas necessitando da colaboração da população, para sua manutenção e combustível? No dia a dia, olhamos para estes aspectos?

A população é tomada sempre pelo desespero e, quando acontece um evento similar ao da paralisação dos caminhoneiros, pensa antes na sua individualidade.

A corrida para os postos e os supermercados não ajudou ao movimento e, ao contrário, deu razão aos preços exorbitantes pagos na bomba de gasolina, já que, ainda que inconformados, muitos pagaram o preço, algumas vezes cobrado em dobro ou mais do que o preço já alto da gasolina.

O governo, tentando desmobilizar a paralisação, acenou com reduções no óleo diesel, principal combustível usado pelos caminhoneiros, congelamento temporário do preço e redução na CIDE, um dos impostos arrecadados com a venda de combustível. Em contrapartida, a Petrobras não acenou com qualquer redução, alegando que o mercado é que vai regular os preços, enquanto ainda exigiu a compensação pela redução e congelamento temporário dos preços, com o subsídio com recursos dos cofres públicos, em um orçamento já estrangulado. Adivinhem quem vai pagar a conta?

O congelamento e tabelamento de preços já foram utilizados em outros tempos e sabemos que não é a solução. A verdadeira solução, que está na revisão dos orçamentos dos governos federal e estaduais, sequer foi ventilada.

Imaginemos que, ao invés de uma paralisação de caminhoneiros, tivéssemos uma paralisação dos instaladores e profissionais de manutenção de condicionadores de ar, em pleno verão. Na pauta de reivindicações está redução do imposto sobre o gás, tubos de cobre e outros insumos vinculados ao uso do ar condicionado.

A população, tomada pelo susto, corre às lojas e busca comprar ventiladores e outras opções para proteger-se do calor. As ruas em frente às lojas ficam lotadas, filas enormes, as lojas começam a ficar sem estoque e os aparelhos têm o seu preço remarcado pelo dobro do valor original.

O governo, preocupado com a situação da população, que sofre com o calor do alto verão, propõe estratégias para atender a reivindicação dos profissionais de manutenção e instalação de condicionadores de ar e propõe:

  1. Congelamento dos valores dos insumos e variação de preço “com previsibilidade”, cujos aumentos seriam absorvidos por subsídios dos cofres públicos e criação de outros impostos a serem pagos pela população;

  2. Criação e de uma tabela de valores mínimos para instalação, por intermédio de lei;

  3. Garantia de que os carros destes profissionais não precisarão pagar pelo estacionamento rotativo quando estiverem “em serviço”;

  4. Garantia de que 30% dos equipamentos do governo serão atendidos pela categoria.

É uma analogia com um tom de comédia mas, tanto na analogia, quanto na situação real, o governo entende que se saiu bem, pois mantém o mercado, o valor do produto continua sendo mantido pelo povo, que vai pagar as novas formas de arrecadação e os profissionais agora têm uma tabela de preços.

Esta cena é utópica e beira à comédia. Sendo assim, dificilmente teria uma situação real similar a este cenário. Mas, permitam-me deixar fluir a minha mente fértil.

Vejam que, em nenhum momento, citei partidos ou personalidades políticas e isso é proposital. Atualmente, perdemos muito tempo discutindo um com o outro, a partir de uma polarização política, onde é preciso ter um ganhador e um perdedor. Pessoalmente, sempre tive resistência ao diálogo “ganha-perde” ao invés do diálogo “ganha-ganha”.

A discussão a partir de opiniões diferentes não existe mais. Se você acenar com uma opinião contrária ao do seu interlocutor, de imediato é acusado com pejorativos e rotulado com uma posição política, quer de esquerda, quer de direita.

Enquanto isso, não temos tempo para avaliar o que realmente está acontecendo ao nosso redor.

Não temos ainda o fim das manifestações e, ainda que já se mostrem alguns indicativos de que o transporte de cargas, produtos, insumos e combustíveis retorna lentamente à normalidade, já vemos desdobramentos preocupantes deste movimento, com a implosão de outras manifestações e paralisações que buscam aproveitar-se do caos criado nos últimos dias.

Ainda sem ter fim nas manifestações, podemos já tirar algumas lições:

  1. Tivemos, na história brasileira, uma série de governos que iniciaram e não terminaram o seu mandato;

  2. Saímos de um modelo de subsídios de um governo que, por mais de uma década, não observou, de forma competente, os indicadores econômicos e financeiros, comprometendo uma grande empresa nacional, a Petrobras e desestabilizando diversos setores da economia, além da educação, saúde e segurança, com a bandeira de que os programas populares salvariam as camadas mais pobres da população;

  3. Estamos sob o comando de um governo atual, que apresenta um programa que não foi submetido à decisão da população, na medida em que foi eleito sob um programa a partir de uma coligação partidária e, com o afastamento do titular, assumiu a posição de mandatário maior do país. Este governo não tem uma agenda voltada à população, mas está preocupado em atender aos interesses de grandes grupos econômicos nacionais e internacionais, além da preocupação em proteger seus aliados;

  4. Este mesmo governo, não está sabendo lidar com as manifestações e com as pressões de grandes grupos econômicos. Portanto, os resultados não atenderão às reivindicações populares. As concessões acordadas, para desmobilizar a paralisação dos caminhoneiros receberá subsídios dos cofres públicos e, ao final, será novamente a população que pagará a conta;

  5. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu índices para a sustentação de setores da sociedade, cujos indicadores atuais estão em patamares muito superiores aos de 30 anos atrás e a realidade atual não traduz a realidade imposta na época pelo normativo máximo, a Constituição Federal, mas os indicadores precisam ser seguidos, o que traz um desequilíbrio econômico e uma distribuição de financiamentos incompatível com a realidade e gera a forçada imposição da arrecadação selvagem para os cofres públicos;

  6. Estamos sob o peso do machado da tributação fiscal, que imobiliza o poder de compra da população e impede o avanço da produtividade, com impostos astronômicos. Independente das soluções propostas pelos governos para buscar o equilíbrio financeiro, estas sempre passarão pela readequação da tributação, com a oferta de subsídios para equalização de eventuais perdas e mecanismos de compensação, cujo custo, no final da cadeia, é sempre assumido pela população;

  7. O Brasil é altamente vulnerável a choques e ocorrências negativas, de tal forma que não tem capacidade para combater, por exemplo, o impacto da especulação financeira, onde grandes volumes de dinheiro entram e saem do país, causando turbulências nas finanças do país, muito menos lidar com crises gigantescas como a ocasionada pela paralisação dos caminhoneiros. Qualquer “marolinha” no mercado financeiro internacional desestabiliza o mercado financeiro interno. Sempre haverá aquele que vai dizer que houve governo onde isso não aconteceu, mas sabemos que foram adotados mecanismos artificiais que agora estão mostrando os resultados negativos;

  8. A polarização política nos diferentes ambientes e cenários não permite a construção de uma agenda positiva e a união de todos os segmentos produtivos para a construção de um plano de crescimento com sustentabilidade. Recebemos constantemente o impacto de medidas paliativas e temporárias que, ao invés de propor soluções de médio e longo prazo, buscam resolver problemas pontuais e sem gerar uma solução duradoura;

  9. Perdemos, com o tempo, a independência e a capacidade de soluções alternativas, na medida em que deixamos de investir na malha ferroviária, sucateando-a, tornando-nos excessivamente dependentes do transporte rodoviário, além de depender excessivamente de combustíveis fósseis, deixando de investir em fontes de energia e combustão alternativos;

  10. O alimento do dia a dia depende quase que exclusivamente do que é adquirido nos supermercados. Deixamos de cultivar e incentivar a produção familiar de alimentos e produção local. As famílias não têm mais horta, não compram mais direto do produtor e ficam totalmente dependentes do mercado que, por sua vez, depende do transporte dos alimentos;

  11. Representantes de organizações com visão política de esquerda tem estratégias que, quando detectadas, tornam-se difíceis de ser combatidas. Estão já há muito tempo infiltradas em setores da sociedade, como associações, conselhos e também nas igrejas, infiltrando seus conceitos e ideias, em um “trabalho de formiguinha”. Não precisa muito para identificar onde estão estes representantes;

  12. Estamos vindo de uma sucessão de governos, constantemente abalados por ocorrências de desvios financeiros, corrupção, mandatos outorgados por mecanismos questionáveis e construção de mecanismos que protegem verdadeiras quadrilhas entre os vários setores dos governos, tanto em nível federal, quanto em nível estadual ou municipal;

  13. Este cenário evidencia o caos do sistema político atual, sinalizando com o colapso do sistema atual, abrindo dois caminhos: o caminho ideal, atualmente utópico, que necessita de uma transformação geral, para aperfeiçoar a democracia no Brasil (pessoalmente, não incluo a extrema esquerda nem a extrema direita neste processo) ou uma solução autoritária (que pode vir tanto pelo caminho da extrema esquerda quanto pela extrema direita);

  14. Estamos mais próximos de uma solução autoritária, seja pelo uso da força para solucionar as paralisações e dos seus desdobramentos, haja visto que já é evidente a infiltração de outras forças que buscam se apropriar das manifestações ou, considerando a proximidade das eleições, a troca mandatários no país - legitimamente empossados, pois o serão por intermédio do voto popular - tanto de extrema esquerda quanto de extrema direita, como de um posicionamento político mais central;

  15. Nenhuma das opções me parece saudável, mas uma coisa é certa: estamos sob a fragilidade das relações; a tão falada democracia está em xeque; os modelos atuais de governo, organização da federação, estados e municípios estão ultrapassados e as formas de arrecadação de impostos já não são mais suportadas pela população, comércio, indústria e prestadores de serviços.

Estamos em um momento adequado para a revisão de conceitos e práticas e às vésperas de um pleito, em outubro, que pode, se o quisermos, iniciar a mudança dos rumos do país.

Deveríamos aproveitar este momento para repensar as nossas atitudes, discutir em conjunto qual a melhor proposta de governo, o que é preciso para fazer o Brasil crescer com sustentabilidade e pensar como é o Brasil que nós queremos. Mais justo, honesto, competente! Porém, sem polarização, ainda que com a saudável divergência de opiniões. A polarização entre “coxinhas” e “mortadelas” não vai resolver os problemas do país, mas atende bem ao mercado e aos grandes grupos econômicos, na medida em que “coxinhas” e “mortadelas” se digladiam, principalmente nas redes sociais e não percebem as manobras do mercado.

Que tal pensar um pouco mais sobre nossa história, sobre filosofia e, porque não, sobre religião?

Prof. Uwe Roberto Strauss EDUCADORPONTOCOM Capacitação e Desenvolvimento www.educadorpontocom.com.br


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