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  • Uwe R. Strauss

ERA UMA VEZ...


... uma rainha que vivia em um grande castelo.

Ela tinha uma varinha mágica que fazia as pessoas bonitas ou feias, alegres ou tristes, vitoriosas ou fracassadas. Como todas as rainhas, ela também tinha um espelho mágico.

Um dia, querendo avaliar a sua beleza também, ela perguntou ao espelho:

- Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu?

O espelho olhou bem para ela e respondeu:

- Minha rainha, os tempos estão mudados. Esta não é uma resposta assim tão simples. Hoje em dia, para responder a sua pergunta, eu preciso de alguns elementos mais claros.

Atônita, a rainha não sabia o que dizer. Só lhe ocorreu perguntar:

- Como assim?

- Veja bem - respondeu o espelho - em primeiro lugar, preciso saber porque Vossa Majestade fez essa pergunta, ou seja: o que pretende fazer com minha resposta? Pretende apenas levantar dados sobre o seu ibope no castelo? Pretende examinar seu nível de beleza, comparando-o com o de outras pessoas, ou sua avaliação visa ao desenvolvimento de sua própria beleza, sem nenhum critério externo? É uma avaliação considerando normas ou critérios predeterminados? De toda forma, é precisa, ainda, que Vossa Majestade me diga se pretende fazer uma classificação dos resultados.

E o espelho continuou:

- Além disso, eu preciso que Vossa Majestade defina com que bases devo fazer essa avaliação. Devo considerar o peso, a altura, a cor dos olhos, o conjunto? Quem devo consultar para fazer essa análise? Por exemplo: se consultar somente os moradores do castelo, vou ter uma resposta; por outro lado, se utilizar parâmetros nacionais, poderei ter outra resposta. Entre a turma da copa ou mesmo entre os anões, a Branca de Neve ganha estourado. mas, se perguntar aos seus conselheiro, acho que minha rainha terá o primeiro lugar. Depois, ainda tem o seguinte: - continuou o espelho - Como vou fazer essa avaliação? Devo utilizar análises continuadas? Posso utilizar alguma prova para verificar o grau dessa beleza? Utilizo a observação?

E o espelho concluiu:

- Finalmente, será que estou sendo justo? Tantos são os pontos a considerar...

Autor desconhecido.

Texto adaptado de Utilization-Focused Evaluation,

Londres, Sage Pub, 1997, de Michael Quinn Patton.

Há poucos dias, foram divulgados os resultados do ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio. Todos os anos acontece isso e diversas escolas iniciarão a divulgação de publicidade, apresentando a sua posição no "ranking" do ENEM.

Gosto de me reportar à origem da prova realizada com alunos do 3º Ano do Ensino Médio ou egressos do Ensino Médio. O ENEM é um exame que tem por propósito, pelo menos na sua origem, ser um instrumento de avaliação das instituições, para fornecer dados ao MEC sobre o desempenho das escolas, a partir dos resultados dos aluno que realizam as provas.

Penso que é sempre pertinente perguntar-se se é adequado estabelecer um ranking de escolas, a partir dos resultados do ENEM.

Se observarmos atentamente os resultados, poderemos ver que a diferença na pontuação entre diversas escola é de décimos de um ponto. Não vejo onde esta diferença mínima pode contribuir para a avaliação em um ranking de escolas.

Mais pertinente, no âmbito interno das escolas, é estabelecer INDICADORES PEDAGÓGICOS.

Estes diversos indicadores pedagógicos servirão para comparar seu desempenho em relação ao desempenho de anos ou períodos anteriores. A grande avaliação é aquela que a escola faz dela em relação a ela mesmo. Ou seja, criar uma série de indicadores pedagógicos, que criem índices que permitam, por sua vez, comparar a escola a si mesmo.

Mas, também é interessante comparar o seu desempenho em relação ao desempenho de outras escolas, não em relação a um "ranking", mas em relação aos resultados.

Atuando por algum tempo na CNEC - Campanha Nacional de Escolas da Comunidade, pude acompanhar a aplicação do ENEC - Exame Nacional das Escolas Cenecistas, uma prova nacional, aplicada a todos os alunos cenecistas, desde o 2º Ano do Ensino Fundamental, usando os critérios usados no ENEM.

A prova prepara os alunos para responder questões subjetivas e integradas, nos moldes do ENEM. Mas também tem o objetivo de avaliar o desempenho dos alunos do projeto pedagógico da rede cenecista, comparando dados das unidades em relação a si mesmo e em relação a outras escolas/redes.

Outro aspecto que deve ser considerado é que somente são divulgados os dados das escolas, cujo número de aluno participantes foi maior do que 10.

Além disso, é importante considerar que há escolas que criam mecanismos de encaminhamento de alunos para realizar a prova do ENEM. Evidentemente são escolhidos os melhores alunos, situação que acontece em várias escolas, principalmente no centro do país. No sul, em especial no RS, esta prática não é tão frequente.

Há algum tempo atrás, li um artigo que relata um relatório de um sociólogo americano, em 1966, cujo nome não me recordo neste momento.

O relatório relata sobre os fatores associados ao desempenho de aluno nos EUA. De lá para cá, especialista em avaliação educacional vêm trazendo diversas considerações em relação à avaliação de desempenho.

Entre elas, a constatação de que o nível sócio-econômico dos estudantes é um fator que mais explica o resultado.

Uma escola que dá bolsas para alunos carentes, que não discrimina alunos com alguma deficiência e não expulsa alunos que repetiram de ano, perderá pontos neste processo avaliativo, que privilegia escolas que têm como propósito principal a preparação para o ENEM.

Este argumento não contribui para dizer que os resultados de um exame nos moldes do ENEM não devem ser considerados. Pelo contrário, colocam o ENEM como um dos indicadores a serem avaliados. No entanto, contribui para minimizar os efeitos da constante tentativa de um ranking de escola com o qual a mídia sempre insiste.

A melhor escola não é, necessariamente, aquela que está no topo de um ranking mas, sim, aquela que consegue fazer mais do se esperava por seus alunos e aprimorar-se sempre.

Isto, o ENEM não mostra.

Prof. Uwe Roberto Strauss

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